Colar de R$ 2 milhões dado por Buzeira a Neymar levou polícia a investigar rede de receptação de alianças roubadas em SP
24/08/2026
(Foto: Reprodução) Buzeira posou ao lado de Neymar Jr., afirmando ter presenteado o atleta com uma corrente avaliada em R$ 2 milhões
Reprodução/Instagram
Um colar de ouro avaliado em R$ 2 milhões que o influenciador Buzeira deu de presente a Neymar durante um cruzeiro em 2023 foi o ponto de partida de uma investigação da Polícia Civil que posteriormente chegou a uma rede suspeita de receber, derreter e revender alianças e outras joias roubadas em São Paulo.
Neymar não é investigado no caso e não há nos autos qualquer indicação de participação do jogador no esquema. A polícia também não afirma que o ouro utilizado na fabricação do colar tenha origem criminosa.
Nesta segunda-feira (24), a Polícia Civil de São Paulo realiza uma operação contra uma rede suspeita de atuar desde o roubo de alianças e outras joias de ouro nas ruas até o derretimento das peças e a reinserção do metal no mercado. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 34,6 milhões em contas dos investigados.
A investigação iniciada após a repercussão do presente levou os policiais a Douglas Bonetti Rocha, conhecido como "Jimmy", identificado como o fabricante da joia. A partir das informações obtidas com o depoimento dele e de outras diligências, a Polícia Civil abriu um novo inquérito para investigar a origem do ouro utilizado por Douglas.
Essa apuração posteriormente alcançou uma rede de comerciantes e intermediários suspeitos de atuar na receptação de ouro proveniente de furtos e roubos. Entre eles estava Rony Gonçalves, apontado pela investigação como elo entre criminosos que obtinham as joias e comerciantes da região central de São Paulo.
A nova fase cumpre 4 mandados de prisão e 28 de busca e apreensão em São Paulo e Guarulhos. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 34 milhões em bens dos investigados.
A investigação mira toda a cadeia do ouro roubado: desde os responsáveis por furtos e roubos de alianças e outras joias, passando pelos intermediários, até empresas suspeitas de comprar as peças, derreter o material e posteriormente recolocá-lo no mercado.
A Polícia Civil de SP faz uma operação contra uma quadrilha que comprava joias de ouro roubadas
Como o colar levou à investigação
O caminho que levou a polícia até Douglas começou durante uma investigação que já estava em andamento sobre Buzeira e possíveis irregularidades relacionadas a rifas na internet.
Em dezembro de 2023, durante o cruzeiro "Ney em Alto Mar", Buzeira apareceu nas redes sociais entregando a Neymar um colar de ouro com pedras preciosas. O influenciador afirmou que a peça era avaliada em R$ 2 milhões.
Na época, Buzeira disse que resolveu dar a corrente ao jogador depois de perceber que Neymar havia gostado da joia, que tinha uma coroa esculpida e "00" cravejado.
"Eu resolvi presentear um cara que é minha maior referência, dei minha corrente em forma de medalha. Onde esse cara chegou poucos vão chegar", afirmou Buzeira na ocasião.
Segundo depoimentos de delegados reproduzidos no processo, a repercussão e o alto valor atribuído ao colar chamaram a atenção. A partir de publicações nas redes sociais, a polícia identificou Douglas Bonetti Rocha, o "Jimmy", que aparecia marcado em postagens relacionadas à joia.
Douglas foi intimado e ouvido pela polícia em janeiro de 2024. Segundo um dos delegados, ele afirmou que adquiria ouro de diferentes fornecedores e também em leilões da Caixa Econômica Federal. Na ocasião, apresentou uma nota fiscal de R$ 720 mil.
O delegado afirmou à Justiça, porém, que naquele momento não conseguiu esclarecer a procedência de todo o ouro utilizado. Segundo ele, a falta de clareza levou à abertura de um novo inquérito específico para investigar Douglas, no qual foi solicitado um relatório de inteligência financeira ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O policial ressaltou, entretanto, que não teve acesso ao colar, não foi realizada perícia para determinar o valor real da peça e não foi possível comprovar eventual origem ilícita do ouro utilizado em sua fabricação. Neymar e Buzeira também não chegaram a ser intimados para prestar depoimento nessa investigação.
Buzeira presenteou Neymar Jr. durante cruzeiro que partiu de Santos (SP)
De Douglas a Rony
Com o avanço da investigação, a polícia identificou relações financeiras e comunicações entre Douglas Bonetti e Rony Gonçalves, que trabalhava havia anos na chamada "Rua do Ouro", no Centro de São Paulo.
Segundo a investigação, Rony atuava como intermediário: obtinha dinheiro junto a comerciantes, adquiria joias suspeitas de terem sido roubadas e posteriormente as repassava aos lojistas.
Um dos delegados afirmou à Justiça que Douglas mantinha uma relação mais próxima com Rony do que outros comerciantes investigados. Relatórios de inteligência financeira e dados extraídos de celulares também indicaram transações e comunicações entre os dois.
Rony nega integrar uma organização criminosa. Em interrogatório, afirmou conhecer Douglas por trabalhar na mesma região e disse ter feito apenas negociações esporádicas de ouro com ele.
Para a acusação, entretanto, Rony funcionava como um fornecedor permanente dos comerciantes investigados. Ele entregaria peças de ouro e receberia o pagamento posteriormente, em negociações que, segundo o Ministério Público, ocorriam "quase todos os dias".
Douglas, por sua vez, é apontado pela acusação como integrante do núcleo de comerciantes que ficava na etapa final da cadeia. Segundo o processo, esse grupo recebia peças de ouro de procedência criminosa, que eram fundidas e revendidas em outro formato, dificultando a identificação de sua origem. A acusação cita peças provenientes de furtos, roubos e até latrocínios.
O processo, porém, não apresenta prova direta de que Douglas pessoalmente tenha realizado o derretimento das peças. Um dos delegados afirmou não se recordar de prova direta de que ele tenha manipulado fisicamente ouro ilícito.
Mainha do Crime
Outra frente da investigação ajudou a polícia a identificar de onde parte das joias chegava até Rony.
Segundo a acusação, Suedna Barbosa Carneiro, conhecida como "Mainha do Crime", ocupava posição estratégica em uma organização envolvida na obtenção de joias e objetos de ouro roubados.
Rony seria a ponte entre esse núcleo e os comerciantes. No celular apreendido de Suedna, a polícia encontrou um vídeo enviado por uma linha registrada em nome da mulher de Rony no qual um homem aparece pesando alianças de ouro dentro de um copo plástico.
Em interrogatório, Rony afirmou que conheceu Suedna quando ela apareceu como cliente na Rua do Ouro. Segundo ele, posteriormente ela entrou em contato oferecendo ouro e ele foi até Paraisópolis para realizar uma negociação. Rony disse que não sabia que as peças poderiam ter origem criminosa.
A investigação, por outro lado, sustenta que Rony era justamente o elo entre pessoas ligadas aos crimes patrimoniais e comerciantes que compravam o ouro.
Operação Ouro Reverso 2
A primeira fase da Operação Ouro Reverso foi realizada em maio de 2025 e teve Rony entre os principais alvos.
A segunda fase, deflagrada nesta segunda-feira, busca atingir outros integrantes da cadeia. São cumpridos mandados na capital e em Guarulhos, inclusive na região central conhecida pelos investigadores como "círculo de fogo", onde funcionariam empresas suspeitas de comprar as joias e processar o derretimento do ouro.
Ao todo, 60 policiais participam da operação. A ação também conta com auditores da Receita Estadual, responsáveis por verificar a regularidade fiscal das empresas investigadas, e avaliadores da Caixa Econômica Federal, que auxiliam na avaliação e custódia de joias e outros objetos de valor apreendidos.
A Justiça determinou ainda o bloqueio de cerca de R$ 34 milhões em bens relacionados aos investigados.