Acesso a diagnóstico e tratamento de doenças genéticas que afetam a imunidade ainda é desigual no Brasil

  • 13/05/2026
(Foto: Reprodução)
Freepik Os erros inatos da imunidade são doenças raras que afetam o sistema imunológico e podem levar a imunodeficiência, doenças autoimunes, infecções graves ou incomuns, inflamação crônica, alergias intensas e aumento do risco de câncer. Embora pouco conhecidas, essas condições representam um grupo amplo e complexo de doenças genéticas que impactam significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Na América Latina, a prevalência estimada dessas doenças era de aproximadamente 1 em cada 10 mil indivíduos. No entanto, com o avanço das técnicas de sequenciamento de DNA, estudos mais recentes indicam que esse número pode ser maior, com estimativas globais variando entre um em mil e um em cinco mil pessoas. Esse aumento não necessariamente reflete um crescimento real dos casos, mas sim uma maior capacidade de diagnóstico. Nas últimas décadas, mais de 500 genes já foram identificados como causadores de erros inatos da imunidade, segundo o comitê de especialistas da União Internacional das Sociedades de Imunologia. Essas condições podem ser herdadas de diferentes formas — autossômica dominante, autossômica recessiva ou ligada ao cromossomo X — e apresentam manifestações clínicas bastante diversas. Isso significa que uma mesma alteração genética pode resultar em quadros muito diferentes entre pacientes. Em alguns casos, duas pessoas com o mesmo defeito genético podem apresentar sintomas leves ou graves, ou até mesmo permanecer sem manifestações clínicas. Esse fenômeno pode estar relacionado, entre outros fatores, à chamada penetrância genética. Quando a penetrância é completa, todos os indivíduos com a mutação desenvolvem a doença. Já na penetrância parcial, apenas uma parcela dos portadores manifesta sintomas, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. Vídeos em alta no g1 Sequenciamento genético O avanço do sequenciamento de nova geração revolucionou a identificação dessas doenças. Essa tecnologia permite analisar grandes porções do DNA de forma rápida e detalhada, aumentando significativamente a taxa de diagnóstico molecular. Antes disso, o sequenciamento era realizado por métodos mais tradicionais, como o sequenciamento de Sanger, que, embora preciso, é mais limitado e analisa regiões específicas do material genético. Apesar desses avanços, a disponibilidade dessas tecnologias no Brasil ainda é limitada. Isso dificulta o diagnóstico precoce, o acesso a tratamentos personalizados e o aconselhamento genético adequado para pacientes e suas famílias. O que investigamos Diante desse cenário, realizamos uma revisão sistemática da literatura científica com o objetivo de entender como as tecnologias de sequenciamento de nova geração vêm sendo utilizadas no Brasil para o diagnóstico dessas doenças. Foram analisados estudos disponíveis em bases como PubMed, SciELO, Embase e Scopus. Inicialmente, identificamos 237 publicações. Após a remoção de duplicatas e aplicação de critérios de elegibilidade, apenas 10 estudos foram incluídos na análise final. Esse número reduzido evidencia uma lacuna importante na produção científica nacional sobre o tema. Observamos que a maioria dos estudos foi conduzida em grandes centros médicos localizados nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, que concentram serviços de referência para doenças raras credenciados pelo Ministério da Saúde. Esse padrão reflete uma desigualdade já conhecida na distribuição de recursos e infraestrutura em saúde no país. Mesmo nesses centros, há desafios para a implementação de um portfólio amplo de testes genéticos, especialmente para o diagnóstico de erros inatos da imunidade. Além disso, o Sistema Único de Saúde (SUS) não reembolsa a maior parte dos testes genéticos. Isso significa que, mesmo quando famílias buscam alternativas fora do sistema público, os custos recaem integralmente sobre os pacientes. Como consequência, cerca de 75% da população brasileira, que depende exclusivamente do SUS, tem acesso limitado a diagnóstico genético abrangente e tratamento adequado. Esse cenário contribui para a manutenção de desigualdades regionais e sociais no acesso à saúde, resultando, na prática, em um sistema dual. Quando o diagnóstico demora, o risco aumenta Essa lacuna não é apenas uma questão de acesso à tecnologia ou produção científica — trata-se de um problema clínico com impacto direto na vida dos pacientes. O acesso tardio ao diagnóstico baseado em sequenciamento de DNA pode atrasar intervenções potencialmente salvadoras, como o transplante de células-tronco hematopoéticas. Esse procedimento pode ser curativo para algumas dessas doenças, especialmente quando realizado precocemente. Isso é particularmente relevante em condições graves, como a imunodeficiência combinada grave. Nesses casos, o diagnóstico molecular precoce é essencial para orientar o transplante no momento adequado. Quando realizado nos primeiros meses de vida, antes do desenvolvimento de infecções, o transplante está associado a melhores taxas de sobrevida. Por outro lado, diagnósticos tardios aumentam o risco de infecções graves e complicações. E reduz as chances de sucesso do tratamento. Políticas e avanços no Brasil Nos últimos anos, o Brasil tem avançado na incorporação da genômica à saúde. Iniciativas como o Programa Genomas Brasil têm impulsionado a medicina de precisão por meio do sequenciamento genômico. Isso contribui para maior acurácia diagnóstica e melhor compreensão do risco de doenças. A Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras, instituída em 2014, estabeleceu serviços de referência e redes de atenção especializada no SUS. Apesar da conquista, esses serviços ainda estão concentrados principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste. Outras iniciativas importantes incluem a criação da Rede Brasileira de Doenças Raras (RARAS), em 2020, e, mais recentemente, a Rede Nacional de Genômica para Erros Inatos da Imunidade (RENOMIEII). Esta última integra atualmente 20 instituições de saúde e centros de pesquisa e utiliza diferentes abordagens ômicas — como genômica, proteômica e transcriptoma — para melhorar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes. Esses esforços têm promovido maior integração entre centros de genética e bioinformática em todo o país, facilitando a incorporação da genômica clínica no SUS. Em breve, este cenário deve mudar. O Ministério da Saúde anunciou, em fevereiro deste ano, a implementação desses exames no SUS. O sequenciamento do exoma será realizado no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Crianças e do Adolescente Fernandes Figueira da Fiocruz e no Instituto Nacional de Cardiologia. Estas instituições já abrigam centros de referência para doenças raras e algumas dessas iniciativas de projetos de pesquisa. Mas, a partir de agora, terão a capacidade de converter ciência em saúde para a população. Desafios persistentes Apesar dos avanços, ainda existem barreiras importantes para a implementação dessas tecnologias em larga escala. Diferenças entre plataformas de sequenciamento, métodos de análise e padrões de relatório dificultam a padronização dos resultados e a comparação entre laboratórios. Além disso, a baixa representatividade da população brasileira em bancos de dados genômicos internacionais limita a interpretação de variantes genéticas, especialmente aquelas classificadas como de significado incerto. Nesse contexto, iniciativas nacionais como o banco ABraOM e o projeto DNA do Brasil são fundamentais. Esses bancos reúnem dados genômicos de populações brasileiras, incluindo grupos urbanos, rurais e indígenas, contribuindo para melhorar a precisão dos diagnósticos. Caminho à frente O avanço das tecnologias de sequenciamento de DNA tem potencial para transformar o diagnóstico e o tratamento de doenças raras no Brasil. No entanto, para que esse potencial se concretize, é necessário ampliar o acesso a essas tecnologias, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a integração entre pesquisa e sistema de saúde. Sem esses avanços, o país corre o risco de aprofundar desigualdades já existentes, em que apenas uma parcela da população se beneficia dos avanços da medicina de precisão, enquanto muitos pacientes continuam enfrentando longas jornadas até o diagnóstico. Os dados deste estudo serão publicados no periódico Frontiers in Immunology. Esta pesquisa recebeu financiamento da Faperj, Fiocruz, Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e CNPq. Roberta Soares Faccion recebe financiamento de Faperj e CNPq. Zilton Farias Meira de Vasconcelos recebe financiamento da Faperj, Decit, CNPq e INOVA/Fiocruz.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/05/13/acesso-a-diagnostico-e-tratamento-de-doencas-geneticas-que-afetam-a-imunidade-ainda-e-desigual-no-brasil.ghtml


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